Deixei-te ir

Hoje despedi-me de ti.

Pensava que já o tinha feito, mas pelos vistos foi apenas um engano meu. Acho que lá no fundo, nunca te quis largar. Tive medo que te fosses embora por completo do meu coração e que este vazio, que sinto dentro de mim, se tornasse ainda mais pesado do que já estava.

Hoje sem contar, voltei lá a casa. Entrei como se nunca de lá tivesse saído.  Estavas a vestir a tua melhor roupa e não percebi muito bem para onde é te aprontavas ir.

Ajudei-te para que te sentisses confiante. Estavas a vestir um dos teus melhores fatos e queria pelo menos ter a certeza de que, fosse lá para onde fosses, estarias de bem contigo.

Quanto a mim não tive grandes opções e nem me adiantaria muito ter. Sabia que para estares a vestir um fato isso tinha que ter um significado pois não eras homem de o vestir muitas vezes. Era preciso uma razão importante para o fazeres. Não sabia bem o motivo imperativo para o estares a fazer, mas decidi estar presente. Senti que aquele momento não era apenas teu nem meu, mas sim nosso.

Como toque final para garantir que já nada te faltava, sacudo o teu fato para tirar alguns pêlos brancos que a gata deixou, da última vez que te pediu mimos. Eras incapaz de os negar fosse pelo motivo que fosse.  E quantas vezes a avó se enervou por causa disso!

Olho-te da cabeça aos pés e não parecia faltar mais nada. Estavas pronto.

No fundo, se eu pensar bem a ti não te faltava mais nada, mas a mim faltava-me estar preparada para te deixar ir.

 Sinalizas-me com as tuas expressões que está na hora e tens mesmo que ir. Não é que não gostes do que cá tens, mas assumes a importância dessa partida como a naturalidade dos ciclos que tem de ser cumprida.

E eu tenho tanto de frágil como de corajosa, por isso, encho o peito de ar como quem não tem muitas escolhas e levo-te até ao portão. Não quero desperdiçar nem um bocadinho da tua presença. Acompanho-te com uma força dentro de mim que se pudesse escolher usá-la-ia a favor do meu coração, ou seja, mais depressa te agarrava para ficares do que te acompanhava para te ver partir.

Foi de lá que te preparaste para dar o passo de saída da tua casa que além das quatro paredes erguidas conta ainda muitas histórias. E uma delas é a minha. Foi lá que passei vinte e sete anos da minha vida e me tornei aquilo que sou hoje. E mais do que aquelas paredes ao alto estás lá tu e a avó a dar significado a cada uma daquelas pedras.

Acompanhei-te até não poder mais e, antes que virasses costas rumo sei eu lá bem onde, abracei-te forte. Senti com toda a certeza que era a minha última oportunidade de o fazer.

Abracei-te tão forte com a esperança de que essa força ficasse bem registada no meu corpo de forma a nunca mais me esquecer do nosso último abraço. Quis sentir-te e quis também certificar-me que ias ciente do que sinto cá dentro.

E, para o caso de não conseguires perceber o tudo que esse abraço contém, digo-te quase como que uma ordem: “nunca te esqueças que gosto muito de ti! “

Dei-te permissão para saíres dos meus braços, mas fiz-te lembrar da promessa que me fizeste da última vez que privamos e te roubei algumas lágrimas. Quis ter a certeza de que, fosse pelo que motivo fosse, não me irias deixar de acompanhar.

E agora que já estás quase a virar-me costas só me resta um último pedido. Com a minha cara lavada em lágrimas, agarro-te as mãos e relembro-te a promessa que me fizeste para o caso de teres esquecido. Tenho tanto medo que te esqueças dela porque, no fundo, ela poderá ser a minha última esperança para aliviar as dores de um caminho que tem sido mais do que duro.

É assim que, com os meus olhos postos nos teus, relembro-te em jeito de como quem pede uma confirmação: “vais continuar a tomar conta de mim, não vais?” 

Foi assim que hoje mesmo sem contar e ainda que em sonho decidi deixar-te ir …

Agora limpo a minha cara e olho à minha volta. Observo o mundo do avesso e mesmo assim reparo que ainda são tão poucos os que conseguem perceber as palavras de Camilo Castelo Branco :

“a saudade pelos vivos é dor suave.”

O processo de luto não é igual para toda gente. E, por vezes, por muita compreensão que exista o tempo vai acabar por nos mostrar, realmente, como aceitamos ou não a morte de alguém que nos era querido.

E os nossos sonhos são muitas vezes o reflexo do que existe no nosso inconsciente.

Esta noite sonhei com o meu avô e de certa forma, apesar de ter sido de uma forma subentendida, percebi bem a mensagem. Com toda esta situação de pandemia em que vivemos, atualmente, não foi possível visitá-lo na fase terminal de vida dele e ter ido ao funeral mas com este sonho entendi como  sendo uma aceitação da morte do meu avô  assim como também do que nutro por ele. Com ele ficou também evidente um dos meus maiores medos que é medo de  não ter alguém por perto para me proteger, sobretudo nas horas que mais precisar, tal como ele e a minha avó tão bem sempre o souberam  fazer.

De facto há muitas formas de podermos fazer o nosso luto mas o que é certo é que o que nosso coração e o tempo fazem só pode ser bem feito.

O importante é não esquecer que o luto é um processo e os processos são isso mesmo levam o seu tempo, uns mais outros menos mas o importante é a aceitação de cada etapa que faz parte dele.

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7 opiniões sobre “Deixei-te ir

  1. Gostei imenso da sua descrição

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    1. Muito obrigada por ter passado pelos “meus cinco minutos” e pelo seu comentário. 🙂
      O meu Podcast hoje está com alguns erros, por isso, convido-a também a ouvir-me no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=8ApiOFY6gZQ

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  2. Olá Sofia, aprecio o seu estilo envolvente de escrever. Fiz alguns podcasts pilotos dos meus textos, mas ainda não encontrei o ponto ideal. Vou passar no Spotify e conferir os seus para me inspirar. Abraço

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    1. Muito obrigada por estar comigo nos meus cinco minutos e pelo comentário! Fiquei muito contente por saber que inspirei alguém. Tenho a certeza que ao depositar todo o seu coração naquilo que faz vai conseguir encontrar o “ponto ideal” que procura 🙂 Ficarei muito contente em ter notícias suas, brevemente. Já tentei aceder ao seu blogue mas não consegui. Um abraço

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      1. Tente novamente Sofia : aposenteidessavida.com

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  3. Oi Sofia, acabei de ouvir o podcast. Não esperava, mas ao ouvir a sua voz senti ainda mais o seu lindo texto de despedida do seu avô.
    Com a mudança da música de fundo, percebi com mais evidência a transição para a segunda parte do texto. O seu sotaque português dá um charme especial ao áudio.
    Parabéns!

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    1. O podcast foi criado para isso mesmo. Para poder transmitir melhor a forma /entoação como os textos surgem na minha cabeça para as pessoas poderem estar mais próximas daquilo que quero transmitir.
      Muito obrigada por ter passado, por aqui, pelos “meus cinco minutos” e pelo seu comentário.
      🙂

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