… mais do que um ditado …

“Eu te deito o meu piolhinho, meu piolhaço

meu carrapatinho, meu carrapataço

põe-te a pé seu preguiçoso que hoje é o primeiro de Março”

Era assim que acordávamos lá em casa no primeiro dia de março. Muitas vezes esquecíamos que era o primeiro dia de Março ou ficavamos na cama só mais um bocadinho mas a minha avó acabava sempre por nos bater à porta do quarto para nos “deitar o piolhinho”. Ela divertia-se imenso com isso.

Às vezes eramos avisadas no dia anterior: “vamos ver quem vai acordar primeiro e deitar o piolhinho amanhã e quem vai andar coçar-se durante todo o mês de março”. Sim, era isto que acontecia a quem  fica-se com o dito piolhinho. Este era o risco que corria quem fica-se na cama a dormir mais um bocadinho. Mas isto ficava apenas em palavras, claro, porque pragas de piolhos para lá com elas.

Esta era a tradição do mês de março que se seguia lá em casa.

A minha avó era rica em muita coisa, mas os provérbios populares andavam sempre para trás e para frente em muitas situações. Adorava ouvi-la como falava dos tempos de juventude, dos ditos de amor da geração dela, dos ditados e das tradições. Mais ainda, confesso, quando ela não se inibia do que deitava boca fora. O meu avô, por vezes, até revirava os olhos, com tanto à vontade da parte dela, mas ele foi acabando por se habituar.  Os meus olhos brilhavam quando a ouvia e eu via ali mais do que uma avó. Via uma companheira que sentia as coisas como eu! E queria aprender com ela.

Lembro-me, era eu ainda pequena, de um dia me aproximar dela com um caderno, enquanto ela estava a fazer o almoço, e de lhe perguntar: “Avó podes dizer-me tudo o que sabes? Quero escrever aqui tudo não vá eu esquecer-me”.

Eu sentia-me imensamente encantada com tudo o que ouvia da minha avó e ela até me poderia dizer tudo o que sabia mas as coisas fluíam de uma maneira tão simples, no decorrer das nossas conversas, que pedido assim parecia estar a forçar algo. Mas lembro-me que naquele dia ainda consegui alguns dizeres da sabedoria dela, e eram de amor!

Sentei-me num canto da mesa da cozinha de caderno e caneta na mão a ouvir como as palavras fluíam da boca da minha avó. Deliciava-me a forma como ela vibrava energia e como as palavras eram tão leves, fluidas e cheias de significado. Acho que foi aqui que despertei para a simplicidade de transmitir emoções através das palavras. Era mesmo simples, mas tão mágico!

O que ela vibrava de emoção ao soltar poesia boca fora. E o que eu dançava por dentro por poder desfrutar daquele momento de ouvir tudo o que ela partilhava. Naquela altura já tinha aprendido a ler e a escrever, mas na escola não ensinavam o que eu estava ali aprender.

Algumas coisas ficaram registadas no tal caderno é certo, mas muitas mais ficaram na caixa da memória. A tal que preservo como sendo o meu bem mais precioso e agora, mesmo sem me dar conta, quem as deita boca fora agora sou seu.

É assim que noto que a minha avó continua mais presente do que nunca e que o meu medo de perder o que ela me estava a dar afinal foi apenas isso, medo. Porque agora tenho a certeza de que ficou tudo aqui muito bem guardado.

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